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A tradição marxista

Marxistas de dentro e fora do PT vivem dilemas similares e torna-se obrigatório, para superar o capitalismo, formular teorias para responder às demandas táticas e estratégicas

As ideias de Marx e Engels só foram difundidas no Brasil após a Revolução de 1917, principalmente através de algumas obras de marxistas russos. Desse modo, boa parte dos brasileiros que aderiram ao marxismo teve contato apenas com uma de suas variantes, não com toda a riqueza característica daquela escola de pensamento.

O principal difusor desse marxismo limitado a uma de suas versões foi o Partido Comunista, que aqui surgiu, em 1922, não da unificação de círculos marxistas, ou por divisões na socialdemocracia, mas de uma cisão no anarquismo. Para complicar, a partir dos anos 1930, parte considerável dos "tenentes" ingressou no PC, trazendo consigo a filosofia positivista que marcara seu movimento, nos anos 1910 e 1920.

A influência positivista contribuiu para que as obras marxistas fossem lidas sem espírito crítico e fora do contexto histórico em que foram criadas. Ao invés de ser tomado como escola de pensamento aberto, que devia se desenvolver em conexão com a história da natureza e da sociedade, o marxismo passou a ser tratado como doutrina fechada, capaz de fornecer normas aplicáveis a quaisquer circunstâncias.

Também por isso, a maioria dos marxistas brasileiros não conseguiu formular uma estratégia que emprestasse à nascente classe operária brasileira um papel independente, prevalecendo uma política que subordinava os interesses dos trabalhadores à burguesia ou à pequena burguesia.

Nos anos 1950, o surto de industrialização e o fortalecimento da classe operária e de suas lutas, impondo à sociedade um amplo debate político e ideológico, ajudaram a produzir no Brasil um ambiente propício à criação de uma corrente marxista capaz de analisar a sociedade e apontar estratégias e táticas próprias para a luta pelo socialismo. No entanto, no ambiente encrespado pela radicalização político-social e pela interferência imperialista, esse debate programático e estratégico acabou suplantado pela falsa disjuntiva sobre o caminho pacífico ou armado da revolução. No final das contas, os marxistas não conseguiram produzir as ideias e a prática necessárias para enfrentar com sucesso o golpe militar de 1964, nem a ditadura que se seguiu e ceifou a vida de várias gerações da esquerda brasileira. 

A partir dos anos 1970, o novo surto de industrialização e de fortalecimento da classe operária e de suas lutas recriou o ambiente para os debates entre marxistas e entre estes e outros setores da sociedade. O PT foi fundado e parte dos marxistas brasileiros nele ingressou, esboçando em seus marcos, ao longo dos anos 1980, a criação de uma nova corrente marxista, que pretendia vincular as lutas democrático-populares à luta socialista, a partir da análise do desenvolvimento capitalista.

A maior dificuldade desse setor marxista residiu, inicialmente, no empirismo, ou na ideia de que a prática tudo decide, predominante no pensamento petista. Essa filosofia impregnava não só os sindicalistas e correntes religiosas fundadoras do partido, mas também muitos marxistas, como reação às teorias que haviam levado a esquerda armada e não armada à derrota na luta contra a ditadura militar e à arrogância de um setor da intelectualidade, que pretendia ditar a linha de ação partidária. 

Em sentido contrário, havia os marxistas que, referenciando-se nos livros doutrinários, pretendiam enquadrar a prática em seus esquemas teóricos. Ignorando que a teoria só pode ser gerada a partir da análise da prática, que é dinâmica, tendo de voltar constantemente à prática para ser testada, comprovada e corrigida, esses marxistas, ao invés de contribuírem para superar o empirismo, o fortaleceram pelo exemplo negativo. Também por isso o nível de leitura e estudo continuou baixo no PT, e as tentativas de programas permanentes de formação política, iniciadas em meados dos anos 1980, fracassaram nos 1990. 

Desse modo, os marxistas obtiveram pouco sucesso nos esforços para fazer prevalecer no PT a ideia de que a teoria é uma exigência da luta social e política. Situação que se agravou, na década de 1990, com o surgimento de novas contracorrentes objetivas: a crise geral do socialismo, que pôs em questão o próprio marxismo; a ofensiva neoliberal, que fez retroceder o movimento operário; e a ampliação dos marcos da democracia liberal e de sua janela institucional, que fortaleceu os aspectos táticos em detrimento dos estratégicos. 

Nesse contexto, os marxistas não conseguiram enfrentar a crise do socialismo. Em vez de utilizarem o ferramental marxista para analisar o que ocorrera nas tentativas iniciais de construção do socialismo, muitos marxistas, dentro e fora do PT, abandonaram a reflexão sobre o capitalismo. Passaram a negar a possibilidade socialista, ressuscitaram versões socialdemocratas, comunitário-cristãs e utópicas, criticando a ética capitalista, mas não seu sistema. Ou se refugiaram numa interpretação doutrinarista sobre a crise do socialismo, substituindo a análise histórica por uma sub-literatura de conflitos e traições palacianas. Uns e outros abriram espaço, desse modo, para que os keynesianos de esquerda, que não são comprometidos com a superação do modo capitalista de produção, se tornassem a principal corrente crítica do capitalismo. 

Nos anos 1990, de modo semelhante ao ocorrido em 1930 e 1964, os marxistas foram atropelados pela história. Os marxistas petistas que ainda tentavam se livrar de suas debilidades históricas, entender a relação entre o socialismo e o desenvolvimento capitalista e entre a ação revolucionária consciente e o desenvolvimento natural das contradições de classe, truncaram seu incipiente processo de análise, tanto do desenvolvimento capitalista no mundo e no Brasil quanto do intrincado modo com que o capitalismo brasileiro interagia com o capitalismo internacional, que deveria fornecer os elementos para a elaboração de uma estratégia condizente com o momento histórico. 

Para piorar, dentro e fora do PT, parte dos marxistas do PT preferiu refugiar-se nos velhos clássicos sobre a formação social brasileira, como Sérgio Buarque, Caio Prado Jr., Celso Furtado e Florestan Fernandes, procurando lá as respostas para os problemas e os desafios do capitalismo no mundo e no Brasil dos anos 1990. Desdenharam o fato de que tais problemas e desafios haviam se tornado, em seus aspectos principais, diferentes daqueles analisados na primeira metade do século 20. 

Desse modo, também não conseguiram analisar a ofensiva do capital, em suas versões econômica, ideológica e política neoliberais. Houve os que se encantaram com a globalização capitalista, supondo que isso blindaria o capitalismo contra as crises, sem perceber que estas são inerentes ao modo de produção capitalista, como Marx descobrira e os fatos recentes demonstram. De outro lado, há os que abominaram a globalização como o mal absoluto e agora não sabem explicar como nações atrasadas se beneficiaram dela para desenvolver-se.

Há os que deduziram, no campo político, que o círculo de ampliação democrática liberal chegara à plena consolidação, obrigando que se substituísse a estratégia de luta pelo poder por uma estratégia exclusivamente eleitoral. E há os que continuaram discutindo abstratamente a via revolucionária a ser adotada, desconsiderando que estamos numa época em que a revolução não está no horizonte visível das grandes massas populares.

Em resumo, nos anos 1980, os marxistas do PT deram uma contribuição aquém do necessário. Dos anos 1990 em diante, pouco contribuíram para ajudar esse partido a construir uma interpretação científica da sociedade brasileira, assim como da situação regional e mundial, e propor uma estratégia de transformação que correspondesse ao contexto presente. Como parte desse universo marxista atomizado, este autor assume sua cota de responsabilidade nessa trajetória. 

É evidente que o PT é bem maior do que os variados tipos de marxismo que dele fazem parte. E é evidente, também, que parte considerável dos marxistas brasileiros não está no PT. Estão nos diferentes partidos comunistas e socialistas existentes no país, bem como militando em movimentos sociais ou trabalhando em universidades. Porém, dentro e fora do PT, os marxistas vivem problemas praticamente idênticos. 

Como sempre, a árvore da vida é mais forte que a teoria. Esse momento de extrema confusão e debilidade para os marxistas, dentro e fora do PT, coincide com uma situação em que se combinam a eleição de Lula à Presidência da República, a criação de uma nova correlação de forças políticas no mundo e na América Latina, a crise internacional e as dificuldades enfrentadas pela hegemonia dos Estados Unidos.

Nesse novo contexto, o empirismo que tem guiado o PT mostra cada vez mais sinais de cansaço diante dos desafios que a chegada ao governo nacional e as mudanças na situação internacional colocaram diante de si. Com isso, há um progressivo enfraquecimento da capacidade do PT de analisar a realidade e formular propostas para solucionar os problemas estruturais do povo brasileiro. É lógico que isso não impede o governo de atuar, melhorar a vida do povo e vencer eleições. Mas, na melhor das hipóteses, limita sua atuação à perspectiva de um bom gerenciamento do desenvolvimento capitalista. 

O desenvolvimento do capitalismo tem trazido, junto consigo, o desenvolvimento de seu contrário, a classe trabalhadora assalariada, apesar de todas as previsões sobre o fim dessa classe. À medida que tais contrários se desenvolvam, eles tenderão a gerar crises de crescimento. E essas crises só podem ser resolvidas redefinindo a correlação de forças entre capitalistas e trabalhadores. Ou, para utilizar termos que não são marxistas, mas ajudam a entender o problema, combinando mais capitalismo com mais controle social, ou mais capitalismo e menos controle social, ou mais controle social e menos capitalismo.

Em outras palavras, tenhamos consciência ou não, a questão que sempre se coloca é mais ou menos socialismo, cujas relações com o capitalismo dependem do grau de desenvolvimento das forças produtivas, aí incluída a força social das classes populares. Se o PT não for capaz de elaborar as teorias que o capacitem a tratar, seja estratégica, seja taticamente, as crises de crescimento, corre o risco de se transformar num partido do sistema. Nesse sentido, se analisarmos o nível atual de consciência sobre essa questão, tanto dos marxistas petistas quanto do PT como um todo, podemos chegar à conclusão de que ambos vão mal. 

Para manter o socialismo como perspectiva de futuro, os marxistas e o PT não devem temer fazer parte de um governo de aliança com setores da burguesia. No momento, esse problema é mais complicado para a burguesia do que para as classes populares. Mas, para a burguesia, é um problema tático, a ser resolvido com uma mudança de governo. Para as classes populares, ele é tanto tático quanto estratégico. 

Taticamente, as classes populares precisam resolvê-lo mantendo um governo que, ao longo do tempo, continue "harmonizando os contrários" mais a seu favor do que a favor da burguesia. Estrategicamente, precisam estar teórica e praticamente preparadas para resolver as crises de crescimento, toda vez que a burguesia ou elas mesmas acharem que a harmonização de contrários não é mais de seu interesse, uma tentando resolver a crise às custas da outra, o que as colocará diante da questão do poder, como um todo, e não apenas do governo. 

O ferramental marxista de análise pode ser útil e eficaz para responder a essas questões táticas e estratégicas. Para tanto, os marxistas que participam do PT terão de fazer um esforço extra para aprender a manejá-lo e, ao mesmo tempo, entender as leis presentes no capitalismo global da atualidade, assim como nos capitalismos nacionais, em especial no brasileiro. 

Essa talvez seja a condição essencial para compreender em que condições a possibilidade socialista pode se tornar uma realidade. Se os marxistas do PT conseguirem contribuir na solução dessas questões, terão rompido com uma tradição que Marx certamente chamaria de tudo, menos marxista.

Wladimir Pomar é membro do Conselho de Redação de Teoria e Debate, foi coordenador da campanha de Lula de 1989, autor do livro Quase Lá, entre outros

 

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