Um advogado presente

O advogado Aldo Lins e Silva nos relata episódios importantes da história recente do país, nos quais quase sempre esteve presente.

O advogado Aldo Lins e Silva nos relata episódios importantes da história recente do país, nos quais quase sempre esteve presente.

Na clandestinidade ou na legalidade, contou com a confiança da direção do Partido Comunista, particularmente de seus amigos Luiz Carlos Prestes e Carlos Marighella. Por acaso, no dia do golpe de 64 estava com Miguel Arraes, quando este recebeu voz de prisão. Hoje, nosso entrevistado faz questão de ter registrado em seu cartão de visita: "advogado - militante do PT".

Como foi sua formação intelectual?
Fui dotado no curso da vida por dupla sobrevivência. A primeira, quando nasci, em Recife, nos meados de 1919, sob o signo da primeira guerra mundial, quando ao seu término grassava no mundo todo a temida gripe espanhola, que dizimou muita gente. Era recém-nascido, mas sobrevivi graças aos cuidados de meu pai, um médico de grande experiência, e da proteção de minha mãe, uma senhora de engenho banguê muito destemida. Era o caçula de uma família de dez filhos.

O conceito profissional de meu pai, Augusto Lins e Silva, levou-o ao magistério de Medicina e de Direito do Recife, como docente da cadeira de medicina legal. Sem nenhuma vocação para a política, foi deputado, membro da Academia Pernambucana de Letras, da Academia Nacional de Medicina e do Instituto Geográfico e Arqueológico de Pernambuco. Seu último posto no magistério foi no Rio de Janeiro, lecionando sociologia no Colégio Universitário da Universidade do Brasil, no qual eu viria a estudar no prelúdio do meu ingresso na Faculdade Nacional de Direito, na qual me diplomei em 1943.

A minha infância e parte da juventude sempre foi entre pessoas ligadas ao estudo e à inteligência de um modo geral. Porém, quando mudei-me para o Rio de Janeiro, nos idos de 1936, o meu destino era a Escola Militar do Realengo, da qual sem sombra de dúvida teria sido expulso. Lembro-me que no curso preparatório para a Escola Militar escrevi um trabalho sobre a Proclamação da República e desanquei o pau no marechal Deodoro da Fonseca, escrevendo que desse episódio a única coisa que subsistia na história era a imagem fantasiosa do marechal Deodoro, lançando um brado que nunca deu e erguendo uma espada que não desembainhou. O professor do curso - um coronel reformado, mas de idéias progressistas - aconselhou-me a desistir da carreira militar, o que fiz em tempo.

O senhor conheceu muita gente famosa nessa época no Rio?
A figura mais famosa que conheci por essa época foi o jurisconsulto Clóvis Bevilácqua, que se não me falha a memória, ainda era consultor jurídico do Itamarati. Bevilácqua tinha sido professor da Faculdade de Direito do Recife, um jurista laureado, autor do Código Civil Brasileiro. Era uma pessoa muito singela, o que contrastava com o vulto da sua personalidade. Ainda muito jovem, conheci Carlos Lacerda, J. G. de Araújo Jorge. Chagas Freitas e seus pais eram amigos de meu primo Evandro e de meu irmão médico Mauro Lins e Silva. Ouvia falar muito nas histórias e no talento dos professores Leônidas de Rezende e Castro Rebelo, marxistas de grande expressão intelectual. As minhas inclinações políticas nasceram, certamente, desse convívio. Tinha havido a malograda revolução comunista de 1935, mas que não fora totalmente desarticulada. Prestes e sua companheira Olga Benário estavam foragidos no Rio, porém articulados com os revolucionários e seus simpatizantes. Havia, ainda, a expectativa de deflagração armada do movimento revolucionário. Meu irmão Mauro e eu morávamos ao lado da Companhia Telefônica no Flamengo. Nossos aposentos serviram, então, de quartel general do grupo de revolucionários, à frente Carlos Lacerda, que na época era comunista, encarregado de invadir e tomar a companhia telefônica. O meu papel era o de vigiar a rua e comprar sanduíches e água para os revolucionários. A madrugada foi chegando, o dia amanhecendo e o grupo se dissolveu, para minha decepção.

O senhor não voltou mais ao Recife?
Sim, na campanha eleitoral em 1937, os candidatos eram o escritor e político nordestino José Américo de Almeida, apoiado pela intelectualidade com solução social e brasileira para os problemas do país, e o paulista Armando de Sales Oliveira, candidato da oligarquia que perdera o poder em 1930 e tentara reconquistá-lo em 1932, com o movimento reacionário chamado "constitucionalista". Foi nessa época que me engajei na militância política, por intermédio da União Democrática Estudantil (UDE), embrião da União Nacional de Estudantes (UNE), que seria fundada durante a 2ª Guerra Mundial e da qual fui secretário de Assistência Jurídica, junto com o meu colega de Faculdade, militante do Partidão, Márcio Rolemberg Leite. Ambos fomos convocados para a guerra, no instante em que se formava a Força Expedicionária Brasileira (FEB).

A UNE teve um grande papel para a formação da FEB e a mobilização do povo brasileiro. Foi sob o signo da 2ª Guerra e convocado para o serviço militar que me formei em 1943 e ganhei a segunda sobrevivência ao escapar do exército expedicionário. Espero agora, na idade provecta, sobreviver ao governo do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, de quem fui amigo e admirador.

Ao tempo da UDE, no prelúdio da ditadura estadonovista de 1937, fui detido pela Polícia Política de Pernambuco. Era a época do fascismo caboclo, do chamado integralismo contra o qual o movimento estudantil se defrontava. Fui detido na própria sede da UDE, em Recife, que foi fechada por ordem do general Newton Cavalcanti, comandante da região militar e designado como executor do Estado de Guerra decretado pelo governo na repressão aos comunistas. Meu pai, então deputado, conseguiu negociar a minha liberdade na condição de me retirar da cidade imediatamente.

Fiquei asilado por algum tempo no interior do Rio Grande do Norte, na cidade de Nova Cruz, onde um irmão exercia uma função importante do Ministério da Fazenda. Acalmado o ambiente, meu pai trouxe-me de volta ao Rio de Janeiro. Nesse tempo eu ainda era o que então se chamava "inocente útil", a serviço dos comunistas.

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