• Edição 11
  • 01 julho 1990
    • Alipio Freire,
    • Paulo de Tarso Venceslau

Jacob Gorender

A trajetória do ex-dirigente do PCB sempre esteve ligada à do país. Crítico do stalinismo, ele não poupa as figuras de Diógenes de Arruda e Luís Carlos Prestes, seus contemporâneos na Direção do partidão. E, apesar de reconhecer a crise do socialismo, declara: "Eu continuo marxista".

Comunista, judeu, filho de imigrantes russos, Jacob Gorender nasceu em Salvador, em 20 de janeiro de 1923. Sua trajetória passa pela campanha expedicionária, na Itália; por Moscou, durante o 20º Congresso do PCUS; e deságua no presídio Tiradentes, nos anos 70. Autodidata, é autor de diversos livros, entre os quais O escravismo colonial, Combate nas trevas, A escravidão reabilitada e Marcino e Liberatore (diálogos sobre marxismo, social-democracia e liberalismo). Nos últimos anos, Gorender vem se dedicando ao estudo de temas da política e da economia internacional. Tornou-se professor visitante do Instituto de Estudos Avançado da Universidade de São Paulo e ministrou em 1997 um curso de pós-graduação sobre "História e Marxismo", no Departamento de História da USP. Jacob Gorender é casado com Idealina da Silva Fernandes, filha de Hermogênio da Silva Fernandes, um dos fundadores do Partido Comunista. Filiado desde 1994 ao Partido dos Trabalhadores, Jacob concedeu esta entrevista, em 1990, a Alípio Freire e Paulo de Tarso Venceslau.

Jacob, as recentes mudanças no mundo socialista afetaram em alguma coisa a sua firmeza, a sua visão de socialismo e revolução?
A minha firmeza a respeito do marxismo como método de pesquisa e compreensão da vida social não foi afetada por esses acontecimentos. Eu continuo com a convicção de que o próprio marxismo pode explicá-los. Para isso, entretanto, é preciso que o marxismo seja entendido sem limitações de caráter dogmático e aplicado com inteira criatividade. O próprio marxismo precisa se renovar.

Eu não posso deixar de refletir sobre esses acontecimentos que têm se desenrolado com uma velocidade alucinante e são de caráter completamente inédito. As previsões ao nosso alcance são todas elas condicionais. E, sem dúvida, trata-se de um momento em que o capitalismo está levando vantagem. Querer esconder isso é fugir à realidade. O movimento inspirado pelo marxismo já passou por outros momentos de crise ao longo da história e conseguiu superá-las. Entretanto, penso que esta é a pior de todas as crises. É a mais grave, porque agora se colocou em causa a possibilidade do próprio projeto de construção de uma nova sociedade, inspirada em princípios socialistas. O que nunca esteve em causa, em crises anteriores, de maneira tão urgente, decisiva e generalizada. Mas creio que ainda não chegamos ao fundo do poço.

Como foi seu processo de formação? A sua ida para a Itália, como voluntário na Força Expedicionária, foi resultado de uma reflexão político-ideológica?
Sem dúvida, a apresentação como voluntário para a FEB, em 1943, quando tinha 20 anos, já é conseqüência de todo um processo anterior da minha formação política. Eu nasci numa família judia, muito pobre. Meus pais vieram do antigo Império Russo. Meu pai, da Ucrânia. Minha mãe, da Bessarábia. Meu pai morou um tempo em Odessa, onde viveu os acontecimentos formidáveis de 1905. Estava no cais do porto, quando ali ancorou o encouraçado Potemkim. No mesmo ano ele lutou, de armas na mão, ao lado de revolucionários russos, contra os bandos de reacionários que pretendiam massacrar os judeus. Depois, com o fracasso da Revolução de 1905, com os pogroms e toda a repressão terrível que se desencadeou, ele se incorporou à grande vaga judaica que saiu da Rússia. Afinal, Nathan Gorender veio ter a Salvador. Ali se fixou e se casou com minha mãe, Anna, que chegou mais tarde. Os cinco filhos e meus pais pertenciam àquela categoria dos judeus sem dinheiro descritos num romance de Michael Gold, célebre nos anos 30. Morávamos em cortiços e, às vezes, tínhamos dificuldades sérias até para atender necessidades elementares, como alimentação e roupa. Isso marcou minha mentalidade em formação. Mas não só isso: meu pai era um homem de esquerda, anti-sionista — como, aliás, a maioria dos judeus daquela época —, e me falava do movimento revolucionário russo. Fizera apenas o curso primário, mas lia avidamente. Exerceu forte influência nas minhas inclinações. Interessante é que me tornei materialista não por via do marxismo, mas do darwinismo. Aos 12 anos, aproximadamente, comprei, num sebo da praça da Sé, em Salvador, um volume de Haeckel, um darwinista alemão. Aquela leitura me transformou. Procurei informações em outras fontes e aderi ao darwinismo. Sem conhecer nada ainda a respeito do marxismo. A concepção darwinista a respeito da origem do homem erradicou a visão religiosa. Daí porque me desprendi da religião muito cedo. E adquiri uma concepção materialista evolucionista, posteriormente fortalecida pelo marxismo. Com grandes dificuldades, consegui terminar o curso que, naquela época, se chamava ginasial e entrar na faculdade de direito. No ginásio, depois na faculdade, meu horizonte político e cultural ampliou-se. A essa altura, já nos encontrávamos na época do Estado Novo: censura à imprensa, prisões, perseguições. De tudo isso eu ouvia falar.

Duas circunstâncias também tiveram importância na minha formação: a primeira — o fato de ter crescido em Salvador — me proporcionou contato íntimo com a cultura afro-brasileira. Fui impregnado pela sensibilidade estética de origem africana no que diz respeito à música, à visão plástica, à escultura, às cores e à coreografia, sem falar no paladar. A outra circunstância é que a Bahia foi um estado de participação pequena nos acontecimentos de novembro de 1935, quando se deu o levante militar revolucionário em Natal, Recife e Rio de Janeiro. Levante aliancista, mas dirigido pelos comunistas. Em Salvador, a repressão também foi pequena e, como o ambiente na capital da Bahia era menos opressivo do que em outras partes, lá vieram ter comunistas de vários estados, sobretudo do Nordeste. Este afluxo de militantes politizados iria converter Salvador em um centro de esquerdismo com influência nacional nos anos posteriores. E daí se falar até em Grupo Baiano, e coisas do gênero.

O nome de Luís Carlos Prestes se irradiava de forma lendária. Ele estava na prisão e quem fosse de esquerda ou anti-Estado Novo não podia deixar de reverenciá-lo. Ao mesmo tempo, crescia na Europa a vaga nazista, causando preocupações e ansiedade, particularmente entre a comunidade judaica da Bahia.

Comecei a trabalhar aos 11 anos, dando aulas particulares. Em 1940, consegui emprego em um jornal hoje extinto, chamado O Imparcial. Iniciei-me como arquivista aos 17 anos, passei a repórter e depois a redator. Mais tarde, trabalhei em outros jornais em Salvador. Aí, minha politização avançou. Eu era decididamente antifascista e admirava sem reservas a União Soviética. Para esclarecer bem o quadro político e cultural de Salvador, ali não havia nenhum trotskista, tanto quanto pude saber. Quem fosse antifascista e de esquerda admirava a União Soviética e, consequentemente, aplaudia Stalin.

No movimento estudantil, já como universitário, foi intensa minha atividade na União de Estudantes da Bahia. Eleito membro de sua diretoria, fui contatado por Mário Alves, já militante do Partido Comunista. Assim, por intermédio de Mário, me tornei militante do PC.

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