A CUT de cara nova

Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, foi entrevistado por Teoria & Debate no dia 19 de junho, no aeroporto de Cumbica (Guarulhos-SP), quando se preparava para embarcar, junto com Lula, para uma viagem à África do Sul, onde se encontraram com Nelson Mandela.

No 4° Congresso da CUT, em 1991, quando você era um dos possíveis candidatos à Presidência da Central, houve uma série de incidentes desagradáveis. Em 1994, Vicentinho encabeça uma chapa única, conseguindo costurar uma aliança ampla, difícil, que pouca gente acreditava possível. O que aconteceu?
Em 1991 eu não concorri contra Menegueli. Eu cheguei a me colocar como candidato num grupo muito restrito, do qual participavam Menegueli, Lula e mais quatro ou cinco pessoas. Nesse grupo, Lula concordava que eu deveria ser candidato a presidente. Nessa mesma reunião o Menegueli disse que era candidato, e encerrou-se o assunto. Sobre a diferença do 4° Congresso da CUT para hoje, tem um pouco a ver com a nossa história. No Congresso de 1991, defendi que deveria haver mudanças profundas na direção da CUT. Houve um erro gravíssimo, não se mudou ninguém. Até se ampliou o número na porta da Mercedes Benz, em São Bernardo, de pessoas, quem sabe para tentar resolver desta maneira o problema. É por isso que as mudanças do Congresso agora foram tão grandes, quase 80%, o que eu considero também um erro, mas advindo do fato de não ter renovado em 1991. Temos que trabalhar para que nos próximos congressos a renovação seja de no mínimo 50% de cada direção. A renovação é fundamental para a nossa dinâmica. Também quero fazer aqui uma autocrítica como membro da direção da Central. Nós não tivemos a capacidade de trabalhar as divergências na convergência. Agora, havia a necessidade de renovarem função das dificuldades e do desgaste que ela vinha sofrendo por causa de algumas greves gerais e alguns comportamentos. A candidatura do Lula foi fator fundamental para que também tivesse essa unificação maior. E descobrimos que no Congresso passado a briga repercutiu mais do que as resoluções. Esse sentimento permeou os debates nesse período. Não foi fácil, houve muitas tensões durante o Congresso, mas havia um acordo tácito de garantir um debate de alto nível. Havia uma intenção de - se não houvesse chapa única - pelo menos trabalhar conjuntamente.

As posições vencedoras se contrapõem às correntes mais à esquerda do movimento sindical. Você, que representava uma posição de diálogo, defensor das Câmaras Setoriais, era combatido por esses segmentos de maneira feroz. Como vocês conseguiram essa unidade, apesar dos conflitos?
Existem conceitos diferentes do que é diálogo e do que não é. Como também tenho uma visão diferente do que é mais e menos à esquerda. Não me considero mais ou menos à esquerda, como não considero outros mais ou menos à esquerda e nem mais ou menos radical. Posso considerar mais ou menos inconseqüente, mais ou menos apressado, é certo? Para nós é fundamental essa relação com a base, saber o que queremos e como atuar, ter a capacidade de fazer um retrato real do país.

É o pessoal que tem uma concepção do sindicalismo revolucionário?
Não, são os grupos que dizem que são mais radicais... Eu discordo do que eles dizem. Primeiro, tivemos todo cuidado de dizer que os debates não podem ser anulados. Do mesmo jeito que debatemos a necessidade de fazer com que as organizações regionais estimulassem a relação da CUT com o chão da fábrica, com o chão do banco, com o chão da escola; outras propostas defendiam que deveríamos estatizar todas as empresas, socializar o país imediatamente. Tinha tese que não queria nem o Lula presidente da República, que achava o Mandela entreguista e assim por diante. A partir das teses que defendíamos, conseguimos um acordo mínimo. Foi assegurado um debate de alto nível, nas regiões, nos estados e no Congresso Nacional. O que pautou o debate sobre a chapa única foi o fato de fazermos parte do mesmo barco, da mesma Central. No final das contas, íamos ter uma chapa única, porque tem a proporcionalidade. Agora, é melhor uma chapa única, na base do entendimento, porque você desarma os espíritos. As coisas não estão boas no movimento sindical, existe uma crise profunda. É um movimento extremamente carente, mas mesmo assim não há humildade em reconhecer seus problemas internos, que são muito sérios. Observa-se brigas homéricas, eleições em que a ética desapareceu, em que se gasta muito dinheiro. Daí a aprovação da Comissão de Ética pelo nosso Congresso.

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