assuntos e pessoas:

Bancando o avestruz

O movimento sindical brasileiro passa por uma grave crise. Não é possível que o PT use como método a omissão sistemática em relação aos problemas que ficaram explícitos no 4° Concut, tais como a despolitização e a violência. Discutir dentro do partido o papel da Central é vital para, ambos.

Destacam-se, entre estes problemas, os seguintes:

1) No enfrentamento do peleguismo reacionário e da estrutura sindical oficial imposta pelo Estado acabou se fortalecendo uma visão de pluralismo sindical que, num quadro de despolitização, acaba por justificar a divisão do movimento, mesmo por divergências menores. Estão aí as divisões territoriais de sindicatos, patrocinadas por cutistas (que só favorecem o encaminhamento em separado das lutas comuns), que não nos deixam mentir.

2) No afã de reforçar a nova qualidade do movimento sindical combativo e de seu rompimento com as concepções reformistas predominantes no sindicalismo do período de 56 a 64, gestou-se uma auto-suficiência intolerável de nossos dirigentes, com consequente subestimação do trabalho de formação, o elogio da ignorância e a exaltação do empirismo.

3) O grande feito da conquista de máquinas sindicais poderosíssimas trouxe consigo não apenas o fortalecimento da luta, mas também a criação de amarras que transformam bons militantes em meros (e maus) administradores da burocracia e assistencialismo sindicais. Os cargos nas diretorias, de forma diferente dos tempos do peleguismo, continuaram a ser fontes de status, ascensão social, poder e privilégios para seus detentores, distanciando-os da base e aumentando o risco da consolidação de uma nova camada burocrática nos sindicatos combativos em detrimento da organização pela base.

4) Na luta por um sindicalismo independente, que não fosse uma mera correia de transmissão dos partidos políticos, se constituiu uma concepção que "autonomiza" a luta sindical da política, contribuindo para reforçar o economicismo e o corporativismo, que já possuíam uma larga tradição na vida sindical brasileira.

De todas as deformações, essa última é, sem dúvida, a matriz, uma espécie de "mãe de todos os erros". Efetivamente, não é preciso muita perspicácia para verificar que a despolitização - ou a perda da visão do papel do movimento sindical como um amplo transformador social - é o caldo de cultura propício para fecundar uma concepção onde um estéril doutrinarismo se soma a uma prática que se resume em correr atrás de salários. Progressivamente isso leva a encarar o movimento sindical como um fim em si mesmo e, em conseqüência, alimenta disputas - muitas vezes fratricidas - pelo controle dos aparelhos sindicais.

Creative Commons

Creative Commons
Revista Teoria e Debate. Alguns direitos reservados.