O PT e o Foro de São Paulo

A experiência dos últimos vinte anos mostrou que a natureza do Foro, com seu caráter plural e decisões consensuais, não é um obstáculo nem para os avanços práticos, nem para os acertos teóricos. Mas, nos últimos cinco anos, a experiência revelou que é preciso buscar mais consensos e fazer maiores esforços para levá-los à prática
 

Foro de São Paulo em Carácas

Em 24 de julho, estão marcadas atividades pelo aniversário de Bolívar e em apoio à reeleição de Chavez

Foto: Reuters

O XVIII Encontro do Foro de São Paulo foi realizado entre os dias 3 e 6 de julho de 2010, na cidade de Caracas (Venezuela). Participaram delegados(as) e convidados(as) de mais de cem organizações, em sua maioria latino-americanas e caribenhas, mas também europeias, africanas e asiáticas.

O PT participou com uma delegação integrada, entre outras pessoas, pela secretária de Relações Internacionais (SRI), Iole Iliada; pelo secretário de Movimentos Sociais, Renato Simões; pelo secretário nacional de Cultura, Edmilson Souza Santos; pelo secretário nacional de Juventude, Jefferson de Lima; pela secretária nacional de Combate ao Racismo, Cida Abreu; pela secretária nacional de Mulheres, Laisy Moriére; por vários membros do Diretório Nacional, entre os quais Joaquim Soriano, José Dirceu e Luiz Dulci; por integrantes da equipe da SRI e da Fundação Perseu Abramo; e também pelas senadoras Ana Rita (ES) e Angela Portela (RR).

O partido também contribuiu com a distribuição, a todas as delegações que assistiram ao XVIII Encontro, de uma revista de 44 páginas, com textos em espanhol, sobre o Brasil, os governos Lula e Dilma, os diversos aspectos da ação partidária e, ainda, com nossa opinião sobre a conjuntura latino-americana.

Por fim, durante a plenária de encerramento, coube a Luiz Dulci apresentar o vídeo com a mensagem do companheiro Lula ao XVIII Encontro do Foro de São Paulo. Lula fez um balanço da trajetória da esquerda latino-americana e caribenha agrupada no Foro e declarou, com todas as letras, que a vitória de Chávez será uma vitória do conjunto da esquerda regional.

A memória do encontro será divulgada, incluindo as atas das reuniões do Grupo de Trabalho e das três secretarias regionais (Cone Sul, Andino-Amazônica e Meso-América e Caribe), a síntese das catorze oficinas, três encontros (de jovens, de mulheres e de parlamentares) e dois seminários (um sobre governos e outro sobre descolonização), além do documento-base, as resoluções e moções, bem como a Declaração Final.

Toda essa documentação (incluindo vídeos) pode ser acessada nas páginas eletrônicas do Partido dos Trabalhadores e do Foro de São Paulo.

Ainda no mês de agosto, o Grupo de Trabalho se reúne para discutir como implementar o plano de trabalho aprovado, com destaque para a solidariedade com o povo, o governo e a esquerda venezuelanos, que caminham para vencer a eleição presidencial de 7 de outubro, mas enfrentam desde já e seguirão enfrentando depois os ataques da direita local e do imperialismo estadunidense.

A primeira atividade de solidariedade ocorre no dia 24 de julho, quando esperamos que em todo o mundo se promovam atividades em torno do aniversário de Simon Bolívar e de apoio à reeleição de Hugo Chávez.

A reunião do Grupo de Trabalho terá grande importância, porque além das tarefas imediatas discutiremos o próprio funcionamento cotidiano do Foro de São Paulo. Criado no início dos anos 1990, noutra época histórica, o Foro possui debilidades organizativas que precisam ser urgentemente superadas.

Não é fácil fazer isso, entre outros motivos porque é e deve continuar sendo um espaço plural, do ponto de vista político-ideológico. Portanto, soluções que poderiam ser cabíveis numa Internacional centralizada não são exequíveis num espaço com as características do Foro de São Paulo, que funciona na base do consenso, do respeito e da tolerância.

Algumas das ações e medidas necessárias já foram debatidas em reuniões anteriores do Grupo de Trabalho:

1. A implementação de campanhas continentais e mundiais (por exemplo, a campanha de solidariedade a Venezuela, que foi objeto de uma resolução específica do XVIII Encontro);

2. A solidariedade para com as organizações do Foro em determinados países (os casos mais urgentes, nesse momento, são os de Honduras e Paraguai);

3. Sempre e quando solicitado pelas respectivas organizações nacionais, participar do debate e ajudar a enfrentar coletivamente os desafios locais (é o caso do Peru e de El Salvador, onde, por diferentes motivos, a presença do Foro pode jogar um papel importante);

4. Ampliar o intercâmbio de ideias, de informações, de experiências e de militantes entre as organizações integrantes do Foro de São Paulo (por exemplo, através de uma escola latino-americana);

5. Organizar de maneira mais sistemática o debate sobre os grandes temas estratégicos, como a natureza do capitalismo do século 21, o balanço das tentativas de construção do socialismo no século 20, nossos caminhos para o poder na América Latina etc.;

6. Melhorar o funcionamento do Grupo de Trabalho, das secretarias regionais e da secretaria executiva (o que exigirá, entre outras coisas, que alguns partidos encarreguem dirigentes para cuidar especificamente das questões do Foro de São Paulo).

Essas e outras medidas com o objetivo de superar nossas debilidades organizativas devem respeitar uma cláusula pétrea: manter a natureza original do Foro, ou seja, seu caráter plural e com decisões consensuais.

A experiência dos últimos vinte anos mostrou que essa natureza não é um obstáculo nem para os avanços práticos, nem para os acertos teóricos. Em contrapartida, há vários exemplos do fracasso de outras experiências internacionais, mais centralizadas e homogêneas. Mas, nos últimos cinco anos, a experiência revelou que é preciso buscar mais consensos e fazer maiores esforços para levar tais consensos à prática.

Também nisso o Partido dos Trabalhadores está chamado a continuar jogando um papel importante no Foro de São Paulo. Hoje, por decisão do Grupo de Trabalho, o PT indica o secretário executivo do Foro. Caso a próxima reunião do GT mantenha essa indicação, o partido precisa responder em dois sentidos: primeiro, ampliando os recursos humanos disponíveis para a tarefa; segundo, ampliando o intercâmbio entre os países da região e o Brasil.

O ideal é que o PT, além do secretário executivo e da secretaria técnica, disponibilize mais três dirigentes, que possam acompanhar de maneira permanente as secretarias regionais: Cone Sul, Andino-Amazônica, Meso-América e Caribe. Esse reforço é indispensável para dar conta das tarefas indicadas anteriormente e de outras que certamente serão aprovadas na reunião do Grupo de Trabalho.

No terreno do intercâmbio, cito algumas iniciativas que podem ser adotadas: um plano de publicações, em português, sobre temas latino-americanos e caribenhos (com destaque para as experiências dos governos progressistas e de esquerda); um plano de publicações, em espanhol, das experiências e opiniões políticas do Partido dos Trabalhadores; o intercâmbio sistemático de delegações, especialmente entre jovens; e um plano de visitas de dirigentes petistas a todos os países da região.

A situação brasileira é pouco conhecida, o que colabora para uma leitura equivocada acerca do papel que nosso país joga na região. Por exemplo: a reativação da IV Frota, o golpe do Paraguai e a tentativa de impedir a adesão da Venezuela ao Mercosul têm diversos objetivos e alvos. Mas está claro para nós, embora nem sempre esteja claro para todos, o quanto a direita e o imperialismo consideram crucial cercar e recuperar o Brasil para sua órbita de influência.

Até por isso, o empenho do governo brasileiro para o êxito da integração regional (por meio de organismos como a Celac, a Unasul e o Mercosul, entre outros) e o do PT para o êxito da esquerda regional (com o fortalecimento do Foro de São Paulo, por exemplo) constituem não apenas um ato de solidariedade para com os demais, mas também atitudes que contribuirão para o êxito do processo brasileiro.

O momento atual torna esse empenho ainda mais urgente. A principal característica da conjuntura latino-americana continua sendo a forte presença da esquerda, seja hegemonizando governos, seja protagonizando a oposição dos principais países da região. Mas também é verdade que, já há alguns anos, está em curso uma contraofensiva da direita e do imperialismo. Exemplo disso foi o que se passou em Honduras, mas também no Panamá, em Costa Rica e no Chile, para ficar apenas nesses casos.

O ocorrido no vizinho Paraguai confirmou aquilo que, a partir do Foro de São Paulo, temos alertado seguidamente: está em curso uma contraofensiva das forças de direita, que é facilitada pelos efeitos da crise internacional, assim como pelas debilidades e contradições dos governos progressistas e de esquerda.

Sobre esse último aspecto, podemos dizer que a ofensiva iniciada entre 1998 e 2002, com as eleições de Chávez e Lula, parece estar encontrando seus próprios limites. E as forças de direita, não apesar da crise, mas exatamente por causa da crise internacional, deflagraram desde a eleição de Obama (!) uma contraofensiva, que por enquanto vem nos golpeando nos elos mais fracos, como Honduras e Paraguai.

Quando no Foro de São Paulo começamos, há alguns anos, a falar dessa contraofensiva, não eram poucos os que discordavam, chamando atenção para nossas fortalezas e avanços, assim como para as contradições no campo inimigo. Tudo verdade.

Acontece que, mesmo nos marcos de uma contraofensiva do inimigo, podemos obter vitórias – ainda que algumas possam reacender velhos problemas, como em certa medida está se passando no Peru, após a vitória de Ollanta Humala. Também é verdade que as dificuldades e contradições no campo inimigo são imensas. Mas não se confundam as coisas: a contraofensiva da direita faz parte do esforço deles exatamente para enfrentar suas crises e contradições.

Assim é que avançamos mais sob o governo Bush, do que sob o governo Obama. Assim é que a crise na Europa produz resultados contraditórios, como ocorreu nas eleições francesas e gregas. Assim é que prossegue a escalada militar, com riscos cada vez maiores de Síria e Irã serem convertidos pelo imperialismo no epicentro de um conflito de imensas proporções. Assim é, também, que voltamos a ouvir a palavra golpe no Cone Sul.

Esse debate de fundo, acerca da conjuntura internacional e latino-americana, tem relação com o que estamos vendo nas eleições 2012 no Brasil, tema que evidentemente escapa dos objetivos deste texto. Assim, cabe apenas reiterar o que já dissemos antes: o XVIII Encontro foi um grande sucesso, mas, para enfrentar a atual conjuntura, precisamos de mais e melhor Foro de São Paulo, e isso será tanto mais fácil de conseguir quanto mais o PT possa contribuir.

Valter Pomar é membro do Diretório Nacional do PT e secretário executivo do Foro de São Paulo
 

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