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- Edição 98
- 09 março 2012
Em defesa de uma política externa não intervencionista
Salvar a humanidade do “flagelo da guerra” é o princípio básico da ONU, que erra quando, a pretexto de impedir que ditadores matem o próprio povo, deixa que países poderosos violem os princípios da lei internacional, com desrespeito total à soberania nacional de nações mais fracas
O século 21 precisa de uma nova ONU, que não legitime intervenções insólitas
Foto: Jamal Saidi/Reuters
A esquerda deve apoiar uma política ativa de paz por meio da cooperação e do desarmamento internacionais, e da não intervenção de Estados nos assuntos internos alheios. Nós poderíamos usar nossos fabulosos orçamentos militares para implementar uma forma de keynesianismo global: em vez de exigir “orçamentos equilibrados” no mundo em desenvolvimento, deveríamos usar os recursos gastos com nosso poderio militar para financiar investimentos maciços em educação, saúde e desenvolvimento. Se isso parece utópico, assim também é a crença de que um mundo estável emergirá da nossa atual “guerra ao terrorismo”.
Além disso, a esquerda deveria lutar pelo respeito absoluto pela lei internacional por parte das potências ocidentais, implementando as resoluções da ONU em relação a Israel, desmantelando o império mundial de bases dos EUA e da Otan, cessando todas as ameaças relativas ao uso unilateral de força e detendo qualquer tipo de interferência nos assuntos internos de outros Estados, particularmente todas as operações de “promoção da democracia”, revoluções de “raça” e a exploração das políticas de minorias. Esse respeito necessário pela soberania nacional significa que o cerne da soberania de cada nação é o povo desse Estado, cujo direito de substituir governos injustos não pode ser tirado por estrangeiros supostamente benevolentes.
Tais ações serão refutadas sob a alegação de que permitiriam que ditadores “matem o próprio povo”, a atual justificativa para intervenções. Mas, se a não intervenção pode permitir que coisas terríveis como essa aconteçam, a história mostra que a intervenção militar frequentemente tem o mesmo resultado, quando líderes acuados e seus seguidores despejam sua ira nos “traidores” que apoiam a intervenção estrangeira. Por outro lado, a não intervenção poupa os opositores domésticos de serem vistos como quinta-colunas das potências ocidentais – um resultado inevitável de nossas políticas intervencionistas. Buscar ativamente soluções pacíficas diminuiria os gastos militares e as vendas de armas (incluindo a ditadores que podem usá-las para “matar o próprio povo”), e proporcionaria mais recursos para melhorar os padrões sociais.
Voltando à situação atual, é preciso reconhecer que o Ocidente tem apoiado ditadores árabes por diferentes motivos, que variam de petróleo a Israel, a fim de controlar aquela região, e que essa estratégia está lentamente deixando de funcionar. As lições que devemos aprender, porém, é não se precipitar em outra guerra na Síria, como se fez na Líbia, alegando que dessa vez se está do lado certo, na defesa do povo contra ditadores, e admitir que é mais do que hora de abandonar a obsessão de que precisamos controlar o mundo árabe. No começo do século 20, a maior parte do mundo estava sob controle europeu. Em algum momento o Ocidente acabará perdendo o controle sobre aquela parte do mundo, assim como o perdeu no Leste Asiático e o está perdendo na América Latina. De que maneira o Ocidente se adaptará a seu declínio é a questão política crucial de nossa época; a resposta provavelmente não será fácil nem agradável.
Tradução: Thais Costa
Jean Bricmont é professor de Física na Universidade de Louvain, na Bélgica, e autor de Humanitarian Imperialism (Jean.Bricmont@uclouvain.be)