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- Edição 100
- 09 maio 2012
Uma gestão com ênfase na nordestinidade
O cantor e compositor paraibano Chico César à frente da Secretaria da Cultura da Paraíba, desde 2011, avalia que o discurso tecnocrata das esferas de governo afastam as pessoas comuns. Para enfrentá-lo é preciso ter vontade política, pois o desejo de participação popular transcede e subverte. "Cada vez mais pessoas normais que não são descendentes de famílias políticas, mas cidadãos, devem tirar um tempo do seu cotidiano para empregar na prática política"
A cultura produzida na Paraíba precisa ser reconhecida no estado
Foto: Kleide Teixeira
Está surtindo efeito essa política de valorização dos artistas da terra? Há sempre festivais no final do ano, no centro, na praia... Está exportando também os artistas para outros estados?
Ainda não de modo contundente, eficiente. Nosso primeiro desejo é promover circulação interna. Fazer com que as pessoas da Caiana dos Crioulos, em Alagoa Grande, conheçam a arte de Dona Zabé da Loca, e vice-versa. As pessoas da região de Monteiro, do Cariri, conheçam essa manifestação da Caiana dos Crioulos de Alagoa Grande.
O Fogueiras da Cultura tem bastante a ver com isso. No ano passado trouxemos de volta o Festival de Areia, programação que só tinha artistas paraibanos. Era um jeito de fazer a Paraíba em todas as áreas: no circo, no teatro, na música, na dança, no audiovisual. O foco foi fazer com que os artistas da Paraíba se apresentassem e as manifestações se reconhecessem. Levamos aproximadamente quarenta índios potiguaras e tabajaras em cortejo. Foi muito bonito e muito simbólico, pois as pessoas se perguntavam por que esses índios estavam ali. “Nós somos índios?” Não era um grupo folclórico, eram cidadãos.
Ainda em 2011, promovendo a produção local, em parceria com o Sesc Pompeia, fizemos em São Paulo o projeto Das Bandas de Lá, em que o Sesc contratou, transportou, hospedou, por sugestão nossa, seis artistas ou bandas paraibanas por um fim de semana. Foram Totonho, Escurinho, Beto Brito, Cabrueira, Cátia de França, Socorro Lira. Uma semana depois, por sugestão nossa, e com nossa parceria, levamos o Clã Brasil e Luizinho Calixto para fazer um projeto chamado Paraíba Puxa o Fole, no Auditório Ibirapuera.
Foram dois fins de semana com forte presença da cultura paraibana em São Paulo. É lógico que acontecem num fim de semana na cidade pelo menos quatrocentos eventos. A presença da Paraíba ainda era tímida, mas de todo modo aconteceu e queremos repetir.
O que sinto é que a cultura produzida na Paraíba precisa ser reconhecida no estado. Desde coisas que já aconteceram e se perenizaram na história, como Pedro Américo. Não sei se os jovens de Areia sabem que Pedro Américo, um dos maiores artistas da história do Brasil, nasceu na cidade. Este ano, no Festival de Areia, celebraremos os cem anos de lançamento do EU, livro de Augusto dos Anjos, para que os paraibanos, e não paraibanos, interajam com a obra desse grande escritor que tem linha própria e universal. Sua literatura não é, de modo nenhum, regionalista.
Temos artistas reconhecidos fora, Elba e Zé Ramalho, Adeildo Vieira, Escurinho, Pinto do Acordeon, Bilu de Campina, na música; Fernando Teixeira, Maiana Neiva, Nanego Lira, nas artes cênicas; Zé Rufino, nas artes plásticas, entre outros. Temos de fazer essa arte se tornar mais reconhecida pelos próprios paraibanos.
Nos anos 80 você participou de greve de fome junto com outros companheiros na universidade. O que você reivindicava?
A ministra da Educação Ester de Figueiredo Ferraz, prima do então presidente ditador, João Batista de Figueiredo, cortou os subsídios do preço das refeições nos restaurantes universitários. Com esse corte, uma refeição de, por exemplo, R$ 1 subiu para R$ 11. Eu e outros colegas entendemos que a melhor forma de protestar contra o aumento do preços das refeições era fazer uma greve de fome. E passamos onze dias sem comer.
Esse protesto teve a participação de pessoas menos ligadas ao movimento estudantil em si. Eu era jornalista e estudante. Trabalhava no jornal O Norte, fui cobrir uma assembleia do movimento estudantil e acabei propondo e fazendo a greve de fome junto com meus colegas.
Fazendo movimento...
É. Dom José Maria Pires prestou sua solidariedade e também ex-presos políticos.
Você já pensava em entrar para a política nessa época?
Naquela época estávamos criando o Partido dos Trabalhadores, começo dos anos 1980. Queríamos exatamente isto, entrar na política. Queríamos que estudantes, médicos, bancários, vidraceiros, professores, metalúrgicos disputassem o espaço onde as coisas são decididas. A grande novidade era que o movimento que vinha do sindicalismo, das Comunidades Eclesiais de Base, das associações de moradores, da cultura alternativa, deu origem a um partido que trazia elementos diferentes da política tradicional. Mais do que entrar na política, queríamos trazer a política para o cotidiano.
Você participava de algum grupo ativo, realmente político?
Trabalhei como secretário na sede do PT, em cima da Casa das Frutas. Fui filiado em João Pessoa e também ajudei na formação do partido em Catolé do Rocha. Fui de um movimento mais organizado até enquanto fui secundarista. Quando entrei na universidade estava mais ligado ao movimento cultural, como forma de contestação até, do que com o movimento político propriamente: o Movimento dos Escritores Independentes, o Jaguaribe Carne, o Fala Bairros, entre outros.
E agora, você pretende se candidatar a algum cargo depois que sair da Secretaria de Cultura?
A experiência na gestão cultural, para mim, é suficiente. Na minha atividade cultural posso ser mais útil à política do que se me candidatasse a algum cargo. Trazer para a gestão um pouco dessa vivência de artista independente, que até conseguiu um diálogo com o mainstream da indústria cultural, está de bom tamanho.
Não me imagino participando de eleição, de partido. O governador Ricardo Coutinho disse: “Chico César, que é filiado ao partido das artes...” Imagino que exista um partido da cultura e dele façam parte pessoas de diversos partidos e de nenhum.
O que você pensa da política, do fazer político?
A melhor atividade do ser humano é a política, porque nela o ser humano deixa de pensar apenas nele, como indivíduo, para pensar na coletividade, isso do ponto de vista ideal. Pensar, por exemplo, “somos um grupo de lenhadores”. Esse grupo de lenhadores, para sobreviver, precisa derrubar uma floresta. Naquela floresta vivem vários animais silvestres. A árvore precisa ser derrubada, a madeira vira lenha para aquecer a cidade. É possível conseguir novas formas de produzir energia, de modo que essa coletividade consiga sobreviver de outra forma? E os animais e a floresta? Sobreviveriam?
Então, a política é lidar com vários interesses que estão debaixo de um guarda-chuva maior, o interesse coletivo.
É preciso que cada vez mais pessoas normais que não são descendentes de famílias políticas, mas cidadãos, tirem um tempo do seu cotidiano para empregar na prática política. A dona de casa que perdeu um filho de bicicleta atropelado em uma cidade sem ciclovia. É importante que essa mãe venha para a política. Precisamos fazer com que a política cada vez mais dê vez, voz e voto às pessoas que não estão organizadas.
Maria José Béchade é jornalista, assessora de comunicação e mestranda em Direitos Humanos (CCJ/UFPB)
