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- Edição 24
- 01 março 1994
Propaganda política, TV e linguagem
Os programas políticos na TV tornaram-se tão parecidos que pasteurizam as ideologias e as políticas, afastando o público e diluindo os conteúdos
Já se tornou lugar-comum, na mídia, a crítica ácida aos programas políticos na TV, sejam eles do horário gratuito ou de campanha eleitoral. É claro que parte dessa má-vontade tem origem na gratuidade do horário, que diminui faturamentos, e no fato de a legislação permitir o acesso a todos os partidos, o que cria um evidente mal-estar para as elites tradicionais. No entanto, é necessário considerar que a grande maioria do público também rejeita a propaganda política, incluindo-se nessa atitude um grande número de militantes e pessoas com razoável interesse político. Para o senso comum, a propaganda política na TV é chata e desagradável. Sobretudo, considerando o baixo grau de politização do público brasileiro, esta constatação é preocupante.
A questão torna-se mais grave quando se percebe que, de alguns anos para cá, os programas políticos na TV tornaram-se muito parecidos, mesmo quando os partidos que os produzem pertencem a espectros políticos opostos. É lógico que eles se distinguem em função do volume de recursos mobilizados (custo de produção, recursos técnicos, habilidade narrativa) e da direção de seus ataques - isto é, da aparência de seu conteúdo político. No entanto, a linguagem visual utilizada é tão semelhante, que se torna difícil distinguir quem é quem, pelo menos até aparecer um rosto conhecido ou uma sigla. À medida que a propaganda política na TV pasteuriza as ideologias e linhas políticas, tornando todas as tendências muito semelhantes, ela se afasta do público, passando uma sensação de falta de novidade, de inutilidade e de inoperância.
Se consideramos que a linguagem está indissociavelmente relacionada ao conteúdo que expressa, vamos perceber que a pasteurização dos programas corresponde a - ou pelo menos denota - uma equalização populista das propostas políticas, sejam elas de esquerda ou de direita, socialistas ou neoliberais. Quando tudo acaba se expressando através da mesma linguagem, as diferenças de conteúdo se diluem. Para o público, tudo não passa de um espetáculo de grupos que se atacam sem outro motivo mais profundo que não a conquista ou permanência no poder e a fruição das benesses que isto implica. Conseqüentemente, o interesse diminui - ou mesmo desaparece - e a audiência cai, tornando ineficaz a utilização do horário político gratuito.
No que consiste essa linguagem pasteurizada e qual a sua origem ?
Antes de tudo, dois padrões: a "fala do trono" - ou seja, o talking head do político geralmente em enquadramento 3x4, falando para a câmera por intermináveis minutos; e o assim chamado clipe, em que imagens variadas são costuradas por alguma música composta para o efeito - eventualmente jingles de campanha. São dois padrões-chave, sempre presentes e ocupando, de modo geral, mais da metade dos horários disponíveis. Outras formas, com participação menor, também marcam presença: reportagens dirigidas, geralmente misturadas ou confundidas com seqüências de "povo fala", formatos de telejornal com apresentadores tipo Rede Globo e, eventualmente, sketches de alguma comicidade e interferências do gênero comercial de TV.
Tentativas de incorporar a linguagem da telenovela e números musicais de coreografia hollywoodiana falharam notavelmente, devido ao extremo amadorismo de suas realizações e à perceptível inadequação de seu uso na linguagem política.
A primeira constatação possível no exame dessas formas é a de que todas elas, sem exceção, foram copiadas, importadas de outras áreas da criação televisiva. Nenhuma delas é produto de uma criação original para a propaganda política.
A "fala do trono" é a forma mais óbvia e primitiva de se dar um recado na TV: o enquadramento em primeiro plano cria a aproximação desejada, a intimidade entre quem fala e quem ouve; o olhar direto para a câmera pretende transferir ao telespectador o papel de interlocutor direto. O resto vai por conta do talento, ou falta de, do político que fala. Ganham pontos aqueles que sabem dar à sua fala um caráter coloquial e verídico. Perdem pontos os que só sabem discursar, os que hesitam em demasia ou os que são incapazes de transmitir veracidade em sua fala. De qualquer modo, nada que um treinamento intensivo não seja capaz de resolver. O que nenhum treinamento resolve é o efeito cumulativo desses discursos, afastando espectadores e distanciando-os dos conteúdos políticos em discussão.
Embora óbvia em TV (pelo tamanho do vídeo e de seu posicionamento dentro da casa do telespectador) e de uso quase universal, a "fala do trono" ganhou alguns reforços na cultura política nacional: a Lei Falcão, do período da ditadura, e os pronunciamentos dos presidentes e ministros através da Agência Nacional.
A Lei Falcão obrigava o uso de fotos 3x4 dos candidatos a cargos eletivos, reforçando, durante anos, um padrão de enquadramento no horário gratuito. A cabeça assim exposta ganhou movimento e voz nos anos seguintes, mas continuou fiel à sua origem. Por outro lado, o padrão da Agência Nacional, transmitindo as falas presidenciais, sempre neste formato, permite a associação do tipo de enquadramento à autoridade e à solenidade do cargo.