• Edição 12
  • 01 outubro 1990
    • Antonio Lancetti,
    • Maria Rita Kehl

A subjetivação subversiva

Para o pensador francês, coisas como a crise no Oriente Médio, o racismo, a violência nas grandes cidades e a droga estão relacionadas com o achatamento das subjetividades, que podem subverter a ordem opressora através de movimentos conservadores, desafiando a lógica progressista.

Impossível definir Félix Guattari como pensador sem levar em conta a sua dimensão militante, já que para ele essas coisas não se separam: a reflexão e suas consequências práticas, o individual e o social, o público e o privado. Por isso mesmo, Guattari foi se transformando nessa espécie riquíssima (e hoje rara) de ser humano que vai sendo expulso, ou se auto-expulsando, de todas as instituições, de todos os lugares onde pensamento e ação se paralisam, comprometidos com a manutenção de posições de poder: as sociedades de psicanálise na França, os movimentos e partidos políticos, os modismos intelectuais que tendem a banalizar na forma de grandes conceitos universais a multiplicidade das singularidades humanas.

Excêntrico (ou seja, fora do centro), mas não marginal; coerente com suas ideias, o autor do
Anti-Édipo (com Gilles Deleuze), Revolução molecular, Cartografias do desejo (com Suely Rolnik) e do recente As três ecologias, não se considera sem lugar, num mundo onde os territórios devem ser continuamente reinventados. Esta excentricidade fez com que ele sempre se interessasse pelas formações sociais que expressam dissonâncias subjetivas em relação ao achatamento que o mercado e os mass media promovem: dos movimentos de 68 na Europa à guerra no Oriente Médio, das rádios livres à ecologia, da crise no Leste Europeu à reinvenção do socialismo pelo PT, partido que ele acompanha com interesse desde sua fundação.

A entrevista que se segue foi concedida por Félix Guattari a Antônio Lancetti e Maria Rita Kehl, durante sua última visita a São Paulo, em agosto deste ano. A tradução é de Peter Pál Pelbart.

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