Pelo direito à terra, à vida: lutar e resistir!

No último abril o acampamento Terra Livre realizou marcha por Brasília até o Congresso, onde foi recebido com gás de pimenta e bomba de lacrimogêneo. Foi uma manifestação pacífica, para reivindicar direitos, porém reprimida de forma covarde. Definitivamente esse governo e a maioria do Congresso não reconhecem os povos originários

 o acampamento Terra Livre realizou marcha por Brasília até o Congresso

O acampamento Terra Livre em marcha até o Congresso foi recebido com bomba de lacrimogêneo

Foto: Jornalistas Livres

A democracia ameaçada abre espaço para o ataque a direitos conquistados com muita luta. Homens brancos que representam o retorno ao colonialismo, destruindo conquistas históricas dos povos tradicionais, da população negra e das mulheres, querem decidir o futuro dos povos indígenas, quilombolas e daqueles que lutam pela reforma agrária, perseguindo, matando e retirando suas terras. Um golpe destituiu Dilma Rousseff, uma presidenta eleita democraticamente pelo povo, sem a comprovação de qualquer crime cometido. Foi construído por meio de “conchavos“ nos calabouços do Congresso. Não demorou muito para as máscaras caírem e as peças se encaixarem, ficando óbvio que o principal interesse não era fazer melhor, era garantir o poder de alguns e destruir direitos dos mais fracos.

Não é nova a luta dos povos indígenas, embora a história seja contada por brancos de forma distorcida; as centenas de etnias resistem ao massacre ano após ano, mesmo que tais conflitos passem invisíveis pelo poder público e sociedade. A luta por suas terras de direito é contra a força do agronegócio, que tem seus interesses bem representados no Congresso Nacional e que hoje tentam modificar a legislação que se refere ao processo de demarcação das terras aprovado em 1988. Ao ganharem legitimidade e o direito de demarcar terras através do Poder Legislativo, grileiros e latifundiários saem fortalecidos nos conflitos em questão, pois esses têm grande capacidade de bancar financeiramente campanhas eleitorais e cada vez mais expandir seus negócios. Para os povos indígenas a terra é sagrada, cuidar e cultivar são de sabedoria milenar.

Também com o objetivo de deslegitimar a luta dos povos indígenas está a retomada da CPI Incra-Funai 2, definindo quem é índio e quem não é, criminalizando organizações parceiras e lideranças que lutam por suas terras, tentando a todo custo aprovar a PEC 215, de 2000, que transfere a competência da União na demarcação das terras indígenas para o Congresso Nacional. A proposta também possibilita a revisão das terras já demarcadas. Outra mudança seria nos critérios e procedimentos para a demarcação dessas áreas, que passariam a ser regulamentados por lei, e não por decreto como é atualmente. Ao se pesquisar a origem dos deputados envolvidos é possível constatar que muitos fazem parte da bancada ruralista e têm vínculos com o agronegócio e, pior, vários são fichas-sujas.

Hoje os conflitos por terra representam grande foco de tensão, e o que está em jogo nessa discussão é o reconhecimento dos povos que foram massacrados e exterminados no processo colonialista e a luta por reconhecimento das múltiplas violências ou a garantia de possibilidade de expansão do agronegócio que representa um foco de acumulação de capitais no Brasil. No mesmo sentido o governo ilegítimo dos golpistas tenta desfazer conquistas de atenção diferenciada aos povos, na saúde e na educação indígenas.

No último mês de abril o acampamento Terra Livre realizou marcha por Brasília até o Congresso, onde foi recebido com gás de pimenta e bomba de lacrimogêneo, como tem sido com todo movimento de povo. Foi uma manifestação pacífica, para reivindicar direitos, porém reprimida de forma covarde. Mulheres, jovens e idosos foram brutalmente atacados. Definitivamente esse governo e a maioria do Congresso não reconhecem os povos originários.

Precisamos denunciar e somar forças para proteger nossos povos e lutar arduamente para preservar as terras demarcadas por direito, nessa farsa da CPI a serviço dos latifundiários. É hora de lutar pelos direitos conquistados, pelas bandeiras ainda não alcançadas e pelo restabelecimento da ordem democrática, pois o golpe em curso atinge cotidianamente o povo e põe de forma escancarada o Estado brasileiro a serviço de um pequeno grupo que sempre foi atendido em detrimento das demandas da maioria.

A luta dos povos indígenas precisa da democracia para ter respeito a direitos e compromisso com avanços. Por isso escolher no voto quem vai presidir o país é tão importante. Somente pela democracia será restaurada a esperança de que possamos, além de garantir a sobrevivência, avançar nas políticas públicas e no reconhecimento de nosso sangue indígena no país.

Pelo direito à terra, pelo direito à vida! #DemarcaçãoJá #DiretasJá #ForaTemer

Anne Karolyne é indígena, jovem, mulher e integra a Comissão Executiva Nacional do PT

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