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Livros de História e militância para entender a Revolução de 1917

Os livros indicados e brevemente comentados abaixo podem fornecer caminhos para se compreender o alcance histórico longo e profundo que representa a revolução operária de outubro de 1917. São livros históricos e também de combate político, de testemunhos históricos. Essa é uma escolha entre tantas outras possíveis, mas de alguém que não vê só história nessa revolução, mas perspectiva para as lutas dos trabalhadores de hoje e do futuro

Pôster de Rodchenko

Uma ampla gama de olhares, abordagens e perspectivas sobre a revolução

Foto: Pôster de Rodchenko/Reprodução

A grande efeméride de 2017 provocou uma multiplicidade de publicações sobre as revoluções russas de 1917. Há os livros clássicos que se tornaram documentos históricos incontornáveis, a historiografia ocupada por obras de grandes historiadores e uma vastíssima camada de títulos, coletâneas, artigos, filmes e literatura que cobrem uma ampla gama de olhares, abordagens e perspectivas sobre a revolução.

Para o público de simpatias socialistas, militante, sindicalista, acadêmico ou não, me parece que a listagem e os breves comentários abaixo são leituras incontornáveis, quase obrigatórias. A Revolução Russa foi a maior experiência revolucionária liderada pelos trabalhadores em toda a história. O que ocorreu nos seus anos iniciais, como conquistas históricas em direitos, propostas e perspectivas, tornou-se patrimônio mundial da classe trabalhadora até os dias atuais.

Os livros indicados e brevemente comentados abaixo podem fornecer caminhos para se compreender o alcance histórico longo e profundo que representa a revolução operária de outubro de 1917. São livros históricos e também de combate político, de testemunhos históricos. Selecionei seis livros: dos dois grandes dirigentes da revolução, Lenin e Trotski; de dois historiadores e biógrafos, Jean-Jacques Marie e Isaac Deutscher; e de dois intelectuais que não deixaram de ser militantes, o romancista Isaac Babel e o jornalista John Reed. Existem milhares de livros sobre as revoluções russas de 1917, essa é uma escolha entre tantas outras possíveis, mas de alguém que não vê só história nessa revolução, mas perspectiva para as lutas dos trabalhadores de hoje e do futuro.

Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, de John Reed (LPM). Trata-se do relato comovente escrito pelo jornalista estadunidense e militante comunista John Reed. Esse livro vendeu milhões de cópias pelo mundo e conseguiu reproduzir a intensa energia revolucionária dos trabalhadores russos que faziam a revolução. Seu autor participou e reproduziu em suas páginas os momentos mais vivos da revolução em seus primeiros meses. É um texto de um observador externo e defensor da república dos sovietes a qual via nascer com seus próprios olhos. John Reed morreu de tifo nos primeiros meses da revolução em Moscou.

O Exército de Cavalaria, de Isaac Babel (Cosac Naify). Esse um texto de literatura escrito também por uma testemunha ocular da guerra civil que se seguiu à vitória da Revolução de Outubro de 1917. A edição possui 36 contos escritos pelo autor, que participou dos eventos. No final há um posfácio de tradutor Boris Schnaiderman. Nas páginas de Babel é possível sentir o cotidiano dos soldados da revolução, como no trecho a seguir: “Chovia. Vento e escuridão encobriam a terra empapada. Inchadas de tinta, as nuvens apagavam as estrelas. Os cavalos, estafados, resfolegavam e pateavam nas trevas. Nada havia para lhes dar. Atei a brida do cavalo no meu pé, embrulhei-me no capote e deitei numa cova cheia de água. A terra encharcada envolveu-me num tranquilizante abraço de túmulo” (p. 175). Babel foi fuzilado em 1940 a mando de Stalin.

O Estado e a Revolução, de Lenin. A revolução russa de fevereiro de 1917 viu renascerem os conselhos operários ou sovietes, como ficaram conhecidos. Os sovietes se tornaram instrumentos de poder dos trabalhadores, não eram conselhos de fábrica nem sindicatos nem partidos políticos. Agrupavam todas as correntes e militantes trabalhadores, discutiam lutas dos bairros e categorias, mas também os problemas da luta política pelo poder. Criados pela luta revolucionária dos trabalhadores russos em 1905, durante a primeira grande revolução contra a tirania da monarquia dos Romanov, foram vistos por Lenin como a estrutura do futuro estado operário em formação. Nesse livro Lenin examina desde a experiência da Comuna de Paris de 1871 a como a classe operária abriu caminho para constituir um poder político a partir de sua própria experiência de luta de classes. Escrito no calor da revolução, ajudou a orientar os bolcheviques e por fim os sovietes para a conquista do poder em outubro de 1917.

A História da Revolução Russa, de Leon Trotski (Paz e Terra). Obra monumental de Leon Trotski foi escrita em três volumes durante seu exílio na ilha de Prinkipo, na Turquia. O primeiro volume descreve a queda da monarquia russa e a luta política nos primeiros meses após a revolução de fevereiro de 1917 e a ascensão da liderança de Lenin e do partido bolchevique; o segundo volume descreve as tentativas da contrarrevolução burguesa e o golpe de Estado do general Kornilov; por fim, o terceiro tomo descreve e analisa a conquista do poder pelos sovietes. Muitos historiadores já a destacaram como uma obra de referência não apenas por se tratar das reflexões de um dos maiores dirigentes da revolução, mas também pelo rigor técnico de historiador com que Trotski escreveu seu texto. O mais importante é que o livro mostra como a classe trabalhadora abriu caminho para o poder frente às dificuldades gigantescas e conseguiu vencer. É possível acompanhar o despertar revolucionário das massas trabalhadoras a cada página: “Um descontentamento ativo apoderava-se de toda a classe operária... Precisamente a guerra, suas vítimas, seus horrores, suas infâmias impeliam as antigas camadas operárias, assim como as novas, contra o regime czarista, impelindo-as com uma violência redobrada, levando-as à seguinte conclusão: isto não pode mais durar!” (p. 138). Houve uma revolução e não um golpe de Estado tramado por um grupelho radical como os adversários da revolução comumente classificaram a liderança dos bolcheviques conquistada nos sovietes. Essa revolução foi alimentada pelas lutas dos de baixo, que festejaram sua vitória: “Sim, a revolução é considerada pelos oprimidos como uma festa, ou como uma véspera de festa – e o primeiro movimento das empregadas-escravas despertadas por ela é afrouxar o jugo da servidão quotidiana, humilhante, monótona e insolúvel. A classe operária em seu conjunto não podia nem queria consolar-se unicamente com fitas vermelhas…” (p. 211). Trotski, aqui historiador, estava no coração desse movimento.

Trotski, o Profeta Armado; Trotski, o Profeta Desarmado; Trotski, o Profeta Banido, de Isaac Deutscher (Civilização Brasileira). A trilogia biográfica do historiador polonês ultrapassou certamente seu objetivo original de biografar Leon Trotski e tornou-se leitura obrigatória para aqueles que buscam conhecer não só a vida de um dos maiores líderes da revolução, mas o próprio processo que a desencadeou e a sequência que levou a Revolução de Outubro de 1917 a ser interrompida pela instauração da ditadura de Stalin. O primeiro volume, O Profeta Armado, se concentra em narrar a vida de Trotski e sua experiência na revolução de 1905 e principalmente seu papel central como presidente do soviete de Petrogrado e depois como chefe do Exército Vermelho durante a guerra civil. O volume intitulado O Profeta Desarmado busca analisar os debates entre 1921 e 1929 que antecederam a ditadura stalinista, descrevendo as lutas da chamada Oposição de Esquerda e depois a Oposição Unificada contra a crescente burocratização do partido e seu afastamento da democracia soviética. É um momento em que esses debates ficam cada vez mais restritos ao interior do partido bolchevique. O último volume, O Profeta Banido, é aquele do exílio final de Trotski, suas passagens pela Turquia, França, Noruega e México. Nesse momento ocorrem na URSS os grandes expurgos da velha guarda bolchevique e a ascensão do nazismo na Alemanha. Trotski funda a 4ª Internacional, mas é assassinado no México em 1940 por um agente stalinista.

Stalin, de Jean-Jacques Marie (Babel). Obra do importante historiador francês, que já possui extensa bibliografia dedicada à história do comunismo e da guerra civil de 1917-1922. Ele também escreveu uma biografia de Lenin. Essa obra foi beneficiada pela abertura dos arquivos de Stalin em Moscou, o que permitiu o acesso a documentos, recordações e testemunhos, além de correspondências, atas de reuniões e registros diversos das atividades do ditador. O autor é implacável e preciso ao desmontar o mito que teria feito de Stalin um dos líderes da revolução, mito construído posteriormente pela máquina de falsificações do estado soviético sob o stalinismo: “Stalin se apaga. Ele é um dos representantes dos bolcheviques – assaz minoritários – no comitê executivo central dos sovietes, mas nunca intervém; estranhamente passivo, ele contenta-se em ouvir; as atas deste organismo entre 3 de março e 9 de agosto não assinalam mais do que quatro vezes o seu nome e de passagem. Ele nunca entra em conflito” (p. 136-137). É possível compreender o processo de ascensão de Stalin ao poder máximo em paralelo à destruição da democracia soviética e perseguição aos seus antigos camaradas de luta revolucionária. Em determinado momento o autor destaca: “Conjuga assim habilmente as manobras de aparelho com a instauração de um sistema ideológico coerente e que responde às aspirações da burocracia emergente. Não abordando as questões políticas internas e internacionais senão em função das necessidades da sua luta pelo poder, consegue teorizar todos os problemas reduzindo-os ao máximo e proferir afirmações perfeitamente contraditórias ao sabor das necessidades da luta interna. (p. 277-278). Marie prova que tentativas atuais de reviver o mito stalinista passam longe de qualquer análise um pouco mais séria da própria história.

Everaldo de Oliveira Andrade é professor de História Contemporânea na USP e vice-presidente do Diretório Zonal do PT do Tucuruvi, São Paulo

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