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- Edição 101
- 05 junho 2012
As transformações sociais pela ótica do trabalho
Em seu mais recente livro, Nova Classe Média? O Trabalho na Base da Pirâmide Social Brasileira, Marcio Pochmann, economista, professor licenciado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) até o início de junho, posiciona-se de forma enfática no debate atual acerca da existência ou não de uma “nova classe média” no Brasil. Pochmann afirma, já na introdução do livro, que é um disparate dizer que o Brasil é um país de classe média. O autor defende que de fato houve um processo de ascensão social da classe trabalhadora, cujos níveis de renda e potencial de consumo aumentaram a partir de 2004, de acordo com uma série de dados compilados pelo economista. A existência de tal ascensão, porém, não significa que essas pessoas que trabalham, em sua maioria, nos setores de serviços e construção civil possam ser pensadas como indivíduos de classe média. Ao contrário, continuam a fazer parte, como anunciado no título do livro, da base da pirâmide social brasileira.
Assim, é possível dizer que o economista se posiciona junto daqueles que defendem que os segmentos em ascensão são parte das classes trabalhadoras, ou como prefere o sociólogo Jessé Souza, os “batalhadores”, em contraposição à ideia de uma “nova classe média” encampada pelo economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, e pelos cientistas sociais Amaury de Souza e Bolívar Lamounier, os quais, na visão de Pochmann, estão “engajados à lógica mercantil” e, a partir de “rudimentar tratamento estatístico”, defendem o consumismo e “negam a estrutura de classe na qual o capitalismo molda a sociedade”. Tais críticas se aproximam daquelas realizadas pelo autor de Os Batalhadores Brasileiros. No entanto, a análise realizada no presente livro difere bastante daquela empreendida por Jessé Souza, cujo enfoque microssociológico recai em aspectos culturais e atitudinais dos indivíduos pesquisados. Ao contrário do sociólogo, o economista busca compreender o impacto das transformações sociais recentes pela ótica do trabalho em uma perspectiva macro-histórica, tendo em vista, principalmente, o período que vai da década de 1970 até o ano de 2009.
Especialista na análise das relações de trabalho no Brasil, o autor demonstra, por meio da exposição de várias séries históricas a respeito do tema, que as políticas públicas realizadas durante a década de 2000, especificamente a partir de 2004, com o intuito de reduzir a pobreza e injetar dinamismo na base da pirâmide social brasileira, como o aumento real do salário mínimo e a criação de novos empregos nesse segmento, foram exitosas. A distribuição dos empregos criados beneficiou principalmente as mulheres, os jovens entre 25 e 34 anos, pessoas não brancas e trabalhadores das Regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste, que concentraram metade do total dos novos postos de trabalho. Além disso, o crescimento do poder de compra, da formalização do trabalho (dois de cada três trabalhadores possuem carteira assinada) e dos níveis de escolaridade (43% dos trabalhadores possuíam mais de 9 anos de escolaridade em 2009, em comparação com 23% em 1999) entre os trabalhadores que recebem salário-base (até 1,5 salário mínimo), vem acompanhado do aumento de 14,8% da participação do rendimento do trabalho na renda nacional, que apontaria para uma crescente redução da desigualdade de renda.
