Um mergulho na substância brasileira

Estrategicamente, Dança Popular: Espetáculo e Devoção, de Marianna Monteiro, oferece ao leitor, à guisa de epígrafe iconográfica da “Apresentação”, a fotografia de uma das alas do Acadêmicos do Salgueiro, que no carnaval carioca de 1963 levava para a avenida o samba-enredo em homenagem a Chica da Silva. Flagra-se, no instantâneo, o grupo de negros e negras que enseja os passos de um “minueto”, fantasiado à moda aristocrática do século 18. O cortejo dançante dramatiza a história brasileira, em clave alegórica, pondo em pauta a escravidão, para tangenciar, em termos de atualização do tema, a dimensão política, reivindicatória de direitos sociais. Na história, em contrapartida, insere-se o próprio carnaval, experiência coletiva longeva, tensionada entre a matriz religiosa e o folguedo de aspiração artística, transformado em cultura de massa. Nesse sentido, a imagem situada no pórtico do ensaio aponta, em principal, para os intrincados vínculos entre dança popular e história.

Ao eleger os congos e o bumba meu boi como objetos de estudo, observados em seu passado e presente, a pesquisadora sobrepõe as “determinações históricas” às perspectivas de interpretação que privilegiam caracterizações arquetípicas, universalizantes, de eventos culturais, na direção daquilo que o folclorista Luís da Câmara Cascudo denominou “contemporaneidade no milênio”, em Anubis e Outros Ensaios (1951). Trata-se, na realidade, de “compreender as danças populares brasileiras como parte dos processos de formação do Estado moderno” ou, ainda, de avaliar as “práticas de dança no contexto da sociedade colonial em construção”. Ao sustentar a demanda de “processos formativos” e de “contextos” que dão forma e fundo às expressões culturais do povo, a autora se propõe a ler a história em seu espectro abrangente, espaço de cruzamento de ideários religiosos, políticos, econômicos, discursivos e artísticos (nas vertentes culta e erudita, em permanente tensão e intercâmbios). O instigante trabalho interpretativo de Marianna Monteiro opera diversos vetores especulativos, lançando mão de um instrumental crítico inter e multidisciplinar. A empreitada analítica beneficia-se também do saber etnográfico da autora que, em seu “trabalho de campo”, busca traduzir os sinais de uma experiência étnica presentificada, quando testemunha a sobrevivência (resistência) de manifestações populares, nas quais estão imbricados transcendência espiritual e gesto estético.

Se “o reinado de congo” subsiste em nossa época, coube à pesquisadora indagar o sentido da permanência, localizando as raízes dessa dança dramática no distante século 16, para deter o olhar nas festas setecentistas no mundo luso-americano. A coroação de reis negros no seio das irmandades religiosas, exteriorizada em cortejos dançantes, exprimiria “medidas integradoras” do cativo africano, mobilizadas pelos interesses da coroa portuguesa, favorecendo “a construção de um tecido social minimamente coeso”. O congo teatraliza a guerra contra o infiel (a “guerra justa”), em seu desígnio da propagação da fé católica, levando a reboque o pensamento teológico-político dos reis portugueses. Via de mão dupla, na legitimação dos congados, os negros encontram brechas para a construção de suas identidades culturais. Para a autora, “a participação dos negros nas confrarias e irmandades pode ser compreendida como forma de acomodação à opressão, ou mesmo como controle bem-sucedido dos brancos sobre os negros. Ou, no sentido oposto, como prática de resistência, unindo a função assistencial à combativa, de defesa dos interesses dos negros [...]. Em qualquer das duas hipóteses, o reinado de congo [...] tem uma dimensão política, além da religiosa, sendo um fenômeno teológico-político que se espelha tanto no modelo das monarquias ibéricas católicas quanto na experiência política, então recente, dos povos escravizados”. No século 20, o congo e o moçambique da tradição africana ainda se veem emparedados, em face das forças da cultura hegemônica. Entretanto, como demonstra Marianna Monteiro, o folguedo religioso dançado principalmente por negros suscita um modelo de “construção identitária”, de “integração social”, pondo em marcha a “força da coletividade”; orquestram-se, assim, em proposição ambígua mas fecunda, discursos ideológicos e contraideológicos.

No traço de união entre os bois bumbás presentemente coreografados em diversas partes do Brasil, singulares dentro de uma raiz comum, e as touradas (entre outras manifestações cortesãs e religiosas) setecentistas na América portuguesa, a pesquisadora localiza a “emergência de uma cultura de massa”, de grande impacto na conformação das novas relações sociais. Em um viés de interpretação original, se vale de cordéis do século 18. Os curros, diversão urbana da metrópole ibérica, sinalizavam uma nova forma de sociabilidade, configurando-se “um grande laboratório de experimentação cênica”. Nos intervalos das touradas, ganhava terreno a folgança, de natureza mimética e cômica, forjando os personagens que continuariam vivos ao longo do tempo, na formalização dos bumbas brasileiros, marcados pela justaposição de entrechos (“suíte”). Associada ao jocoso, assoma, então, a figura do negro, que teria encontrado nesse espaço lúdico “a possibilidade de atuação artística”, na “sociedade escravocrata, tanto na metrópole quanto nas colônias”. Nas vinculações entre o teatro burlesco das touradas e os bois, a autora ainda detecta a “permanência de uma tradição de teatro popular nos divertimentos de gente humilde, nas periferias dos centros urbanos”.

A estrada real construída no ensaio de Marianna Monteiro, ao focalizar danças dramáticas populares, desvela os complexos veios subjacentes à tessitura de nossa história, trazendo à superfície tensionamentos, negociações e experiências partilhadas no campo religioso e político. Nesse percurso deságuam instigantes debates sobre os liames entre cultura popular e erudita, a reflexão sobre retórica e seus pressupostos ideológicos, o trânsito entre nivelamento e desnivelamento entre expressões culturais etc. Dança Popular: Espetáculo e Devoção mergulha fundo na substância brasileira, em uma exemplar abordagem multifocal, lançando luz sobre a matéria da qual somos formados, o húmus histórico “bárbaro e nosso”, na provocativa formulação de Oswald de Andrade no Manifesto da Poesia Pau-Brasil de 1924.

Marcos Antonio de Moraes é professor de literatura brasileira no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo

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