O renascimento de Maria Augusta

“O passado nunca morre. Ele nem é passado.” Com essa epígrafe de William Faulkner, o jornalista Renato Dias abre sua obra, na qual busca trazer para o presente, em tempos de Comissão da Verdade, a história de Maria Augusta Thomaz, guerrilheira da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento de Libertação Popular (Molipo).

A primeira característica que chama a atenção é a quantidade de “falas autorizadas” a emprestar seu prestígio ao trabalho: o historiador e ex-militante do MR-8 Daniel Aarão Reis, o ex-guerrilheiro da ALN e ex-ministro José Dirceu e o ex-guerrilheiro Carlos Eugênio Coelho Sarmento da Paz escrevem a apresentação e dois prefácios. O advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, célebre pela defesa de presos políticos e advogado da família de Maria Augusta, assina o posfácio. Com perspectivas distintas, todos ressaltam a coragem necessária e a aventura que significava ter uma militância política ativa nos anos da ditadura militar. O livro é dedicado ao irmão do autor, Marcos Antônio Dias Batista, militante da Vanguarda Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), o mais jovem desaparecido político, aos 15 anos.

Renato Dias realiza um esforço em muitos aspectos bem-sucedido de reconstituir a trajetória de uma jovem do interior de São Paulo que ingressou na luta armada e pagou por isso com a vida. Para tanto, reuniu extensa e variada documentação, como boletins de colégio, cartas de amigos e familiares, entrevistas, relatos publicados de ex-militantes, manifestos políticos, processos do Supremo Tribunal Militar, informes do Dops, artigos de jornal.

O autor nos brinda, com frequência, com a reprodução de trechos de documentos de grande valor histórico. O mérito não é maior porque, em alguns casos, parecem ter a função de completar a narrativa, como se os documentos falassem por si. O contexto histórico é explicado com a reprodução de trechos de obras de especialistas do período, compondo uma narrativa constituída de muitas vozes. A escolha narrativa de mesclar ao texto trechos de documentos e de análises de outros autores é interessante. Contudo, a costura do conjunto se mostra um tanto frouxa, e o leitor não iniciado pode se sentir incomodado ao tropeçar em sequências de nomes de militantes, de organizações de esquerda e de ações que embaraçam o texto, no mais fluente e agradável.

A grande questão subjacente à obra é como uma moça comum de classe média, nascida em Leme, interior São Paulo, passou dos bailes e casinhos interioranos, perfeitamente banais, para a guerrilha urbana contra a ditadura militar, com direito a sequestro de avião em Buenos Aires, com uma bomba na bolsa, treinamento em Cuba e assassinato brutal no interior de Goiás, região onde se pretendia instaurar uma guerrilha rural. Tudo teria começado em 1968, quando a protagonista ingressou no curso de Filosofia na PUC de São Paulo e nas grandes passeatas de um ano histórico para a juventude do mundo todo. Das manifestações de rua, tornou-se delegada do Congresso da UNE em Ibiúna e de lá partiu para as ações armadas.

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