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A guerra cambial

Sem perspectivas de expansão dos seus mercados internos, os países desenvolvidos deverão continuar emitindo moeda para tornar seu câmbio mais competitivo e exportar seus produtos aos países emergentes – e, assim, criar empregos e desenvolvimento. Buscando se defender, esses países impõem restrições à penetração dos produtos dos países desenvolvidos via medidas de proteção cambial. Instaurou-se, assim, mais uma fase da crise iniciada em 2008, a guerra cambial, filhote da guerra comercial e da estagnação dos países desenvolvidos.

O excesso de liquidez gerado pela crise americana derreteu o dólar perante as outras moedas e a tendência é esse processo continuar. Os Estados Unidos pressionam a China para valorizar o yuan. Querem exportar mais para lá e importar menos dos chineses. A China não descolará o yuan do dólar, para não perder sua competitividade externa e não correr o risco de desemprego com o fechamento de fábricas voltadas para exportação.

Para o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, os avanços conseguidos até agora poderão ser solapados se os países superavitários no comércio exterior, como a China, impedirem a valorização de sua moeda e não basearem seu crescimento especialmente no mercado interno.

Para o ministro Guido Mantega, o problema cambial é devido à lenta retomada do crescimento dos países avançados. Eles tomaram medidas para reativar a economia, mas não tiveram sucesso. Diante disso, aumentaram os estímulos monetários, emitindo mais dinheiro, o que resulta em maior desvalorização da própria moeda.

Chuva de dólares. Face ao número crescente do desemprego nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) vai despejar US$ 600 bilhões na compra de títulos do Tesouro de longo prazo. Assim, a guerra cambial será intensificada, pois a desvalorização do dólar, ocasionada por essa injeção de dólares, obrigará os outros bancos centrais a intervir para rebaixar a própria moeda.

Cada país adota uma estratégia para enfrentar a guerra cambial, uma vez que são remotas as possibilidades de uma solução negociada em fóruns internacionais. A questão é difícil, porque há uma enorme liquidez mundial, enquanto as taxas de juros dos países desenvolvidos estão praticamente em zero. Esse dinheiro fica louco para achar uma “boquinha”, que só os emergentes estão podendo dar, sobretudo o Brasil, com suas altas taxas de juros.

No caso brasileiro, a tentativa de combate à apreciação do real é através da compra de dólares pelo Banco Central (BC) em valor maior que o fluxo líquido de dólares que sobram para o país. Isso fomentou o crescimento das posições “vendidas” dos bancos no mercado, o que os leva a apreciar o real. Essas medidas interessam ao BC para controlar a inflação, mas causam estrago na economia. Parece que a estratégia do governo está mudando, pois o diferencial entre juros internos e externos tem um custo de carregamento das reservas internacionais estimado em R$ 50 bilhões neste ano (1,5% do PIB).

Nesse sentido, o governo reduziu a vantagem que os investidores estrangeiros tinham na compra dos títulos de renda fixa ao elevar o IOF para 6% sobre o ingresso de dólares para aplicações em títulos do governo e de 0,38% para 6% sobre as operações de câmbio para constituição de garantias em bolsas de valores, de mercadorias e futuros.

O governo sabe que essas medidas não são suficientes e deverá lançar outras para controle de capitais. Entre elas a quarentena para a entrada de dólares, que traz insegurança aos ganhos do investidor estrangeiro.

O governo tem em mãos as armas necessárias ao enfrentamento dos problemas cambiais e seus reflexos no comércio exterior. O que importa é não brecar a economia, o que somente agravaria o problema concorrencial e social do país.

Amir Khair, mestre em Finanças Públicas pela FGV e consultor

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